terça-feira, janeiro 31, 2012

The Graveyard Book.

Neil Gaiman é um dos autores que mais leio. Descobri agora este livro "para a juventude" nado em 2009. Do alto dos meus 47 anos parece-me que ele nas suas aprox. 200 páginas ultrapassa e muito toda a saga Harry Potter e arredores... Claro que isto é uma opinião emitida por quem acha "Neverwhere", deste mesmo autor, um Daqueles Livros Que...

"'Bod', said Silas. This is Miss Lupescu.'
Miss Lupescu was not pretty. Her face was pinmched and her expression was disapproving. Her hair was grey, altough her face seemed too young for grey hair. Her front teeth were slighty crooked. She wore a bulky mackintosh, and a man's tie around her neck.
' How do you do, Miss Lupescu?' said Bod.
Miss Lupescu said nothing. She sniffed. Then she looked at Silas and said, 'So. This is the boy.' She got up from her seat and walke all around Bod, nostrils flared, as if she were sniffing him. When she had made a complete circuit, she said, 'You will report on me on waking, and before you go to sleep. I have rented a room in a house over there'. She pointed to a roof just visible from where they stood. 'However, I shall spend my time in graveyard. I am here as a historian, researching the history of old graves. You understand, boy? Da?'
' Bod,' said Bod. 'It's Bod, not boy.'"
O rapaz chama-se Nobody Owens, Bod para os amigos, e foi adoptado por um casal de mortos de um cemitério, onde vive. Só ele vive, mortos todos os demais, morto-vivo o seu guardião e protector, de nome Silas. O perigo, ah, há sempre um perigo a espreitar, vem de quem lhe matou a família, pais e irmã, de nome Jack, da irmandade dos Jacks-Of-All-Trades, homens antigos encarregados de manter o mal vivo por este mundo fora desde o antigamente.
Lida num inglês que joga com as vozes dos mortos que morreram em vários tempos e portanto falam um inglês mais ou menos antigo, mais ou menos arcaico, shakesperiano, victoriano, whatever, a história de Bod lê-se a correr, e temos pena quando acaba. O texto é tipicamente Gaiman, ironicamente gótico, "sentimentado" com toda a naturalidade, mantendo-se fresco do princípio ao fim. Se calhar estas histórias existem, os cemitérios quando não vemos são assim, ou se nada disto há, é uma verdadeira pena. Nobody Owens safa-se com a sua mas passa muitos perigos, como devia. É ler, pessoal!
"'They will come back, Silas,' Miss Lupescu whispered. 'Too soon, the sun will rise.'
'Then,' said Silas, 'we must deal with them before they are ready to attack. Can you stand?'
'Da. I am one of the Hounds of God,' said Miss Lupescu. 'I will stand.' She lowered her face into the shadows, flexed her fingers. When she raised her head again, it was a wolf's head. She put put her front paws down on the rock, and, labouriously, pushed herself up into a standing position: a grey wolf bigger than a bear, her coat and muzzle flecked with blood.
She threw back her head and howled a howl of fury and of challenge. Her lips curled back her teeth and she lowered her head once more. 'Now,' growled Miss Lupescu. 'We end this.'"

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segunda-feira, agosto 15, 2011

O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick é dos mais conhecidos autores de ficção científica. Para não ir mais longe a sua novela "Do  Androids Dream of Electronic Sheep?" serviu de base ao filme Blade Runner. E ontem por ex., revi Minority Report, do Spielberg, tb baseado numa hx de PK Dick.
Publicou em 62 este romance "The Man of The High Castle", que em 63 recebeu o Hugo Award para o melhor romance de ficção científica. Li este livro numa colecção dita de autores "que não receberam o Nobel". Uma patetice. Nem o Nobel precisou de Philip K. Dick nem este precisou do Nobel.
E de que trata este romance? Bom, é dos primeiros livros a enveredar pelo fascinante mundo da "história alternativa". Estamos em 1962. A Alemanha e o Japão ganharam a 2ª Grande Guerra e dominam o mundo. Vive-se um ambiente de guerra fria entre os dois potentados. O livro passa-se na costa oeste dos Estados Unidos, um protectorado japonês onde os japoneses ocupam os melhores bairros e os cargos mais importantes, e no Midwest, um estado-fantoche tampão, isto porque a costa leste americana está dominada pelos alemães. O homem do castelo alto é um romancista - que vive sob constante ameaça de atentado... - que se atreveu a escrever um romance onde as potências vencedoras da guerra tinham sido outras...





"CAPÍTULO VI
De  manhã cedo, desfrutando a fresca e brilhante luz do sol, Mrs. Juliana Frink foi fazer as suas compras à mercearia. Percorria o passeio, carregada com dois sacos de papel castanho, detendo-se diante de cada montra, para observar o que apresentavam. Deslocava-se com lentidão.
Não havia qualquer coisa que necessitava de levar da drogaria? Interrogou-se sobre o que seria. O seu turno no ginásio de judo. Não principiava antes do meio-dia; aquele era o seu dia de folga. Sentando-se num banco alto junto do balcão, pousou os sacos com as compras e começou a folhear diversas revistas.
A nova Life, reparou, publicava um grande artigo intitulado: "Televisão na Europa: Um Olhar Sobre o Amanhã". Procurou-o, interessada, deparando-se-lhe a fotografia de uma família alemã, a ver televisão na sua sala de estar. Segundo o artigo, já havia quatro horas diárias de emissão de imagens, transmitidas a partir de Berlim. Um dia, viria a existir emissões em todas as principais cidades europeias. E, lá para 1970, uma delas poderia ser montada em Nova Iorque."

"CAPÍTULO VII
O elegante jovem casal japonês que visitara o estabelecimento de Robert Childan, os Kasouras, telefonou-lhe perto do final da semana, pedindo-lhe que fosse jantar ao seu apartamento. Estivera à espera de receber mais notícias deles e ficou deliciado.
Fechou o American Artistics Handcrafts Inc um pouco mais cedo e tomou um peditáxi para o bairro selecto onde os Kasouras viviam. Conhecia a área, embora lá não morassem brancos.
À medida que o veículo o transportava ao longo das ruas serpenteantes, com os seus relvados e salgueiros, Childan arregalava os olhos para os modernos prédios de apartamentos e maravilha-se com a graciosidade da respectiva concepção. As varandas de ferro forjado, altaneiras ainda que modernas, os tons pastel, o uso que fora feito das diversas texturas… Tudo isso constituía uma obra de arte. Lembrava-se do tempo em que tudo aquilo não passava de montes de destroços causados pela guerra.
As criancinhas japonesas, que brincavam no exterior, observavam-no sem fazerem comentários, voltando depois ao seu futebol ou ao seu basebol. Mas, notou, não se passava o mesmo com os adultos; os bem vestidos jovens japoneses, que estacionavam os seus carros ou estavam a entrar nos prédios, reparavam nele com maior interesse. Viveria ali? Estavam talvez a interrogar-se. Jovens homens de negócios japoneses, que regressavam dos seus escritórios, até mesmo chefes de Missões Comerciais, que lá moravam. Reparou nos Cadillacs estacionados. Enquanto o peditáxi se aproximava do seu destino. Childan sentia-se cada vez mais nervoso."

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¡Oh, es él!

Maruja Torres é uma das jornalistas e cronistas mais conhecidas e premiadas do "El País". No mundo do romance já conseguiu nos últimos anos triunfos daqueles que levam a água ao mesmo tempo ao templo da crítica e à multidão de compradores de livros. Êxito por aqui, por ali e por acolá. Como odiadora profissional de Aznar, Rajoy e de todo o PP, tem a minha admiração.
Este "romancinho", bem, foi um treino, e narra a história de uma jornalista "cor-de-rosa" que decide ir a Los Angeles entrevistar e salvar o seu idolo Julio Iglesias da calvície e de um complot internacional, o que vem a dar no mesmo. É divertido, lê-se bem, não fica para a história, é divertido, lê-se bem...




"- Y ni siquiera sé cómo se llama – se lamentó Diana cuando hubo culminado la narración de lo sucedido.
Para entonces, eran casi las três de la madrugada y Mayo del Altiplano estaba desembarazándose del disfraz de Escarlata O’Hara visitando a Rhett Butler en la prisión, que había lúcido esa noche en su actuación en el club de la sauna.
- Tenias que haberme visto – le había espetado a Diana en cuanto esta irrumpió en su habitación hecha una fúria y también hecha una pena -. Siempre he dicho que mi momento cumbre interpretativo es cuando soy Escarlata luchando por el futuro de su amada Tara. O cuando pongo a Dios por testigo de que nunca más volveré a pasar hambre, comiéndome un nabo.
- Era un rábano. Y tú eres una mala amiga.
- Amigo – puntualizó Mayo tontamente, porque solía referirse a sí mismo utilizando los dos sexos de forma indistinta.
- ¿Cóm ohas podido dejarme abandonada a mi suerte en un sitio tan siniestro?
Se desplomó en la cama.
- No te pongas trágica. Una periodista tiene que saber orientarse en la vida. Además, hubieras visto la preciosidad de culturista que me he ligado. Igualito que el último marido de la pobre Jayne Mansfield, que en paz descanse.
Diana Dial se echó a llorar. Mayo se precipitó hacia ella, se sentó a su lado desplegando el miriñaque en toda su amplitud, y la estrechó entre sus poderozos brazos.
- Cuéntame qué te há pasado.
De modo que Diana se lo dijo, sin omitir detalle.
- La verdad – reflexionó Mayo,com el buen sentido que le caracterizaba -. No sé si lloras porque no te hás corrido, o porque no vas a volver a verle.
- No, si a no correrme estoy acostumbrada – sollozó Diana."

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Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Machado de Assis foi o equivalente brasileiro a Eça de Queirós, simplificando os raciocínios. Assim sendo, foi um grande escritor, artista da língua portuguesa como poucos. Que pouco conhecido é hoje por aqui no rectângulo.
O romance "Memórias Póstumas...", relativamente curto no paginar que não no profundo da sua ironia, conta de trás para a frente para trás a história de um moço brasileiro de boa família e seu percurso, amores, desamores, apegos, desapegos. É na prática um pequeno grande romance, anticlimático ao fim porque já tinha afinal terminado antes de começar, divertidíssimo e de bom escorrer, excepto quando, aqui e ali, o século XIX soa a conhecido, e o barrete cai do alto e nos tapa a visão, há que estar atento.
Leitura obrigatória!




"CAPÍTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO
Ora aconteceu que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (At. IX 7): “Levanta-te, e entra na cidade”. Essa voz saía de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. – Adeus – suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade -; faz bem. – E como eu nada dissesse, continuou:  - Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. – Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito, tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
- Acredita-me? – perguntei eu no fim.
- Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política… que a constituição… que a minha noiva… que o meu cavalo…"


"CAPÍTULO CI / A REVOLUÇÃO DÁLMATA
Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido, certa manhã de Outubro, entre 11 e meio-dia; falou-me de reuniões, de conversas, de um discurso…
- De maneira que desta vez você fica baronesa – interrompi eu.
Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado; mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. Não sei por que, imaginei que a carta imperial da nomeação podia atraí-la à virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava cordialmente a nobreza. Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o o aparecimento de certo pelintra de legação – da legação da Dalmácia, suponhamos -, o Conde B. V., que a namorou durante três meses. Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça de Virgília, que, além do mais, possuia a vocação diplomática. Não chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi sangrenta a revolução, dolorosa, formidável; os jornais, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade… Eu não; eu abençoava interiormente essa tragédia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmácia era tão longe!"

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The Songlines.

Sim, eu sei. Sou teimoso. E tenho manias, resultado talvez de um que outro acidente de percurso com traumatismo craneo-encefálico. Uma mania? Ler na língua original para obviar aos frequentes defeitos de tradução.
The Songlines é o último texto longo de Bruce Chatwin, talvez o viajante escritor mais interessante do século XX. Morreu novo, era bonito, teve uma vida louca. Já se contou: trabalhava para a Sotheby's em Londres, ganhava bem, mandou um telegrama: "gone south (to Patagonia)", desapareceu. Daqui resultou um livro que fez história. Chatwin, o paradigma do espírito irrequieto, tem um enorme interesse sobre o nomadismo, também já se escreveu. Este livro é sobre os Aborígenes australianos e um tipo especial de nomadismo. Que está relacionado com a sua concepção de criação do mundo, dos animais, e de cada indivíduo. A cada coisa, animal, pessoa, corresponde uma canção. Cantá-la, enunciá-la, enquanto se caminha, enquanto se faz a viagem, é um processo místico de afirmação e encontro com os deuses, os criadores do mundo, que foram também os criadores destas canções que, ao serem cantadas, transformaram em realidade o que antes era apenas Sonho. Esta é a história aborígene da criação do mundo: um festival de canções. Enfim, se calhar não é bem nada disto, se calhar é ainda melhor, porque em inglês a escrita rica, pormenorizada e às vezes quase barroca de Chatwin é-me de difícil apreensão. Mas o livro é - quando o entendo - fantástico. Consta que o enredo, a história que se conta, é efectivamente ficção, e que Chatwin não esteve assim tanto tempo com os Aborígenes. Pois, e no entanto...
Consegui "ler": o colossal confronto de culturas tão diferentes que é a dos colonizadores contra a aborígene, com lógicas absolutamente opostas. E que um manto diáfano de respeito e precedência que adquiriu a cultura aborígene permite a estes um jogo de sobrevivência que pode ganhar contornos ora trágicos ora de uma enorme comicidade.
Com o avançar do livro Chatwin vai interpondo cada vez mais apontamentos, como se extratextos, sobre coisas que viu, pensou, achou, se deixou surpreender/encantar nas suas viagens pelo mundo, ainda e sempre à procura do nómada perfeito/perdido. Há algo de urgente, de impaciente, como se Chatwin já não tivesse tempo para transformar os apontamentos e citações em circunvoluções de um romance que aqui fica soterrado, esquecido, para só reemergir escassamente para acabar. Este livro tem aqui o seu desequilíbrio.
E tudo termina em pura poesia, pois há uma canção que se canta e se deixa ouvir. Com se o ruído primeiro, como se o primeiro som das primeiras estrelas, ou dos primeiros homens, ou ainda de quem estava aqui antes deles, tanto faz.



"As I wrote in my notebooks, the mystics believe the ideal man shall walk himself to a “right death”. He who has arrived “goes back”.
In Aboriginal Australia, there are specific rules for “going back” or, rather, for singing your way to where you belong: to your “conception site”, to the place where your tjuringa is stored. Only then can you become – or re-become – the Ancestor. The concept is quite similar to Heraclitus’s mysterious dictum, “Mortals and immortals, alive in their death, dead in each other’s life.”"


"Limpy hobbled ahead. We followed on tiptoe. The sky was incandescent, and sharp shadows fell across the path. A trickle of water dribbled down the cliff.
“Tjuringa placed up there!” said Limpy, softly, pointing to a dark cleft high above our heads.
In a clearing there were three “hospital” bedsteads, with mesh springs and no mattresses, and on them lay three dying men. They were almost skeletons. Their beards and hair had gone. One was strong enough to lift an arm, another to say something. When they heard who Limpy was, all three smiled, spontaneously, the same toothless grin.
Arkady folded his arms and watched.
“Aren’t they wonderful?” Marian whispered,putting her hand in mine and giving it a squeeze.
Yes. They were all right. They knew where they were going, smiling at death in the shade of a ghost-gum."


"Nuristan, Afghanistan, 1970

The villages of Nuristan are set at so vertiginous an angle to the mountainsides that ladders of deodar wood must serve the function of streets. The people have fair hair and blue eyes, and carry battle-axes made of brass. They wear pancake hats, cross-gartering on their legs, and a dollop of kohl on each eyelid. Alexander mistook them for a tribe of long-lost Greeks, the Germans for a tribe of Aryans.
Our porters were a cringing lot, forever complaining that their poor feet could carry them no farther and casting envious eyes on our boots.
At four o’clock they wanted us to but we insisted camp beside some sunless and broken houses, on moving up the valley. An hour later, we came to a village surrounded by walnut trees. The roof-tops were orange, from apricots drying in the sun, and girls in rosse-madder dresseswere playing in a field of flowers.
The village headman welcomed us with a frank and open smile. We were then joined by a bearded young satyr, his hair wreathed in vine leaves and meadow-sweet, who offered us from his leather flask a thread of sharp white wine.
“Here”, I said to the leading porter, “we will stop”.
“We will not stop”, he said.
He had learnt his English in the Peshawar bazaar.
“We will stop”, I said.
“These people are wolves”, he said.
“Wolves?”
“They are wolves.”
“And the people of that village?” I asked, pointing to a second dejected-looking village about a mile upstream.
“They are people”, he said.
“And the village beyond that? Wolves, I suppose?”
“Wolves”, he nodded.
“ What nonsense you do talk!”
“Not nonsense, sahib” , he said. “Some people are people and some other people are wolves.”"


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Os Amores Difíceis

Italo Calvino foi coligindo estes contos durante alguns anos, com início no início dos anos cinquenta. Calvino emergiu - como outros escritores - da nuvem neo-realista e comunista da intelectualidade italiana para nos dar uma versão da vida a um tempo mais melancólica, metafísica e poética. As suas histórias, circunstanciadas e hesitantes, têm a complexidade de um espelho gentilmente partido e que, afinal, não perdeu mas ganhou com o quebrar. Por isso há sempre uma graciosidade e um fundo de não-mal-estar nesta escrita, embora a palavra "amor" nos pareça um manifesto exagero para os processos enzimáticos que por aqui se descrevem. Como excepção a história dos dois trabalhadores que mal se cruzam em casa pois trabalham em turnos opostos. Será essa ausência de tempo partilhado a chave para que o amor aconteça? Ou mais uma acha para a fogueira que Calvino alimenta da vida como engano, acaso, confusão e despiste, em partes iguais?



"Ao largo daquela praia, estava ela nua.
Ninguém o suspeitaria, vendo só a sua cabeça a sair da água, e um pouco os braços e o peito, enquanto nadava com circunspecção, sem nunca erguer o corpo até à superfície. Portanto podia fazer a sua procura de uma ajuda sem se expor demasiado. E para verificar quanto dela é que entreviam olhos estranhos, a senhora Isotta de vez em quando parava e tentava olhar-se, pondo-se a flutuar quase na vertical. E com ânsia via na água os raios de sol piscarem em límpidos reflexos submarinos, e trazerem à luz algas flutuantes e velocíssimos cardumes de peixinhos estriados, e lá no fundo a areia ondulada, e cá em cima o seu corpo: era em vão que ela, enroscando-o de pernas fechadas, tentava escondê-lo ao seu próprio olhar: a pele do nítido ventre branquejava reveladora, entre o moreno do peito e das coxas, e nem o mover de uma onda nem o navegar a pouca profundidade de alga semissubmersas confundiam o escuro e o claro do seu colo.. A senhora recomeçou a nadar naquela sua híbrida maneira, mantendo o corpo o mais baixo que podia; contudo, mesmo sem parar, voltava-se para espreitar pelo canto do olho para trás das costas: e a cada braçada toda a branca amplidão da sua pessoa lá aparecia à luz do dia nos contornos mais reconhecíveis e secretos. E ela a atormentar-se, a mudar de modo e de sentido o seu nadar, e virava-se dentro de água, observava-se em todas as inclinações e a toda a sua luz, contorcia-se sobre si mesma; e atrás dela vinha sempre este ofensivo corpo nu. Era uma fuga do seu corpo que ela tentava, como de outra pessoa que ela, a senhora Isotta, não conseguia salvar num transe difícil, e já não lhe restava senão abandonar à sua sorte. E no entanto este corpo tão rico e impossível de esconder tinha sido uma sua glória, um seu motivo de comprazimento; só uma contraditória corrente de circunstâncias na aparência sensatas podia agora fazer dele um motivo de vergonha.  Ou então não, talvez a sua vida consistisse sempre e apenas na da senhora vestida que ela até tinha sido em cada um dos seus dias, e a nudez lhe pertencesse tão pouco e fosse um inabitual estado da natureza que se revelava de tempos a tempos despertando o espanto nos seres humanos e nela em primeiro lugar."

"Àquela hora, a casa estava sempre pouco aquecida, mas Elide despira-se toda, um tanto arrepiada, e lavava-se na pequena casa de banho. Depois vinha ele, com mais calma, despia-se e lavava-se também, lentamente, tirava de cima a poeira e os óleos da oficina. Assim, estando ambos em volta do mesmo lavabo, meio nus, um pouco inteiriçados, de vez em quando dando empurrões um ao outro ou tirando o sabonete e a pasta dentrífica das mãos um do outro, e continuando a dizer as coisas que tinham para se dizer, chegava a altura das confianças e, às vezes, se calhar ajudando-se um ao outro a ensaboar as costas, insinuava-se uma carícia e davam consigo abraçados.
Mas de repente Elide: - Santo Deus! Já é tão tarde! – e corria a enfiar o cinto de ligas, a saia, tudo à pressa, de pé, e já passava a escova para baixo e para cima pelos cabelos, e esticava o rosto para o espelho da cómoda, com os ganchos presos entre os lábios. Arturo vinha atrás dela, acendera um cigarro, ficava ali de pé a olhá-la, fumando, e de todas as vezes parecia um tanto atrapalhado, por ter de estar para ali sem poder fazer nada. Elide estava pronta, enfiava o casaco comprido, no corredor, davam um beijo, abria a porta e já se ouvia descer as escadas a correr.
Arturo ficava sozinho. Acompanhava o ruído dos saltos de Elide pelos degraus, e quando já não a ouvia continuava a segui-la com o pensamento, aquele trotar veloz pelo pátio, pelo portão, pelo passeio, até à paragem do eléctrico. O eléctrico, em contrapartida, ouvia-o muito bem : chiar, parar, e o bater do estrado por cada pessoa que entrava. “Pronto, apanhou-o”, pensava, e via a mulher apertada no meio da multidão de operários e operárias no “onze”, que a levava até à fábrica como todos os dias. Apagava a beata, fechava as portadas de madeira da janela, para tirar a luz do quaro, e metia-se na cama.
A cama estava como a tinha deixado Elide ao levantar-se, mas do seu lado, de Arturo, estava quase intacta, como se tivesse sido feita nessa altura. Ele deitava-se do seu lado, muito bem comportado, mas depois estendia uma perna para lá, para onde tinha ficado o calor da sua mulher, depois estendia a outra perna, e assim a pouco e pouco deslocava-se todo para o lado de Elide, naquele nicho de tepidez que conservava ainda a forma do corpo dela, e enterrava o rosto na sua almofada, no seu perfume, e adormecia.

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Ritual Da Morte / Off With His Head

Dame Ngaio Marsh pertence à fina flor da novela  policial de língua inglesa que floresceu entre as duas guerras. Nasceu neozelandesa e teve sempre uma paixão pelo teatro, donde o excelente desenho dos seus personagens e suas relações e o entrecruzar dialogado nas suas novelas. Costuma apontar-se-lhe como defeito uma menor capacidade de desenhar o mistério, o estranho, o improvável, o arrepio, como o faz Agatha Christie. No entanto ninguém lhe nega uma óptima qualidade de escrita, como nesta obra de 1957, justamente famosa por retratar uma certa ruralidade profunda inglesa em início de transformação onde decorre um auto de origem medieval, uma dança masculina onde ocorre uma morte ritualizada que afinal.. acontece na realidade!
As velhas colecções de livrinhos de mistério tiveram o seu tempo e ainda têm os seus indefectíveis. Nunca foi o meu caso, mas de vez em quando sabe bem. Assim como Ngaio Marsh. O livro é de mistério e portanto um mistério é colocado e a sua solução é o objectivo, e para ela iremos caminhar. A prosa é cristalina e bem assente, o desenvolver das caricaturas adequado e ágil. Estamos ali, vemos a acção, as vinhetas, os quadros. No fim, a chave do mistério acaba por importar pouco, numa espécie de anticlímax. Bom mesmo foi o transporte, o como o escritor nos pôs ali, num castelo semiarruinado, numa aldeia das traseiras de Inglaterra, no meio de um ritual arcaico, reminiscência de tempos muito antigos. Para variar, neste livros pára-se apenas no fim. Porém, a satisfação não advém do que se descobriu mas apenas porque se leu!



"No abandonado celeiro por detrás da taberna o violino do Dr. Otterly soltou uma toada tão antiga como a própria Inglaterra. Decepcionantemente simples, pulava e vibrava, insistente no seu reiterado convite a quem quer que o ouvisse para que sentisse em certa medida o impulso de saltar.
Cinco homens saltavam: habilmente, com concentração e variedade. Para uma dança traziam campainhas suspensas nas pernas e, enquanto evoluíam e sapateavam as campainhas saltavam literalmente com um tilintar ensurdecedor e sem cadência. Para outra encontravam-se ligados pelo ferro, como convém aos filhos de um ferreiro: por um anel formado com cinco espadas. Saltavam e pulavam sobre as espadas. Teciam e desfaziam uma figura concêntrica. As botas sapateavam ao ritmo do violino erguendo colunas de poeira para o tecto. As faces dos homens estavam pálidas do esforço de concentração: a de Dan, a de Andy, a de Nat, a de Chris e a de Ernie. No perímetro da figura e movendo-se em torno dela, dançando, evoluía o velho Guiser, William Andersen. Na sua cabeça via-se um barrete de pele de coelho. Empunhava o clássico bordão com a bexiga. Não dançava com o vigor dos filhos mas com dedicação. Compunha certas figuras curiosas mas não teatrais que pareciam ocultar um significado qualquer. Ralhava às vezes com os filhos e uma vez por outra mandava-os parar para ele poder parar também."


"O sol de Inverno sorria palidamente sobre South e East Mardian na sexta-feira seguinte à Quara-Feira das Espadas. Reflectia-se nas mesas das salas de jantar do reverendo Samuel Stayne e de sua tia, Dame Alice Mardian. Cobria o galheteiro e as louças de estanho do pequeno refeitório do Homem Verde e um deslavado raio conseguiu romper caminho até às fileiras de garrafas alinhadas no bar e à bigorna da Forja do Bosque. Era muito pouco, é certo, mas havia naquela tímida exibição de luz um elemento animador. Em Yowford o dr. Otterly contemplava a cena com inexplicável optimismo. Em Yowford também, Simon Begg, rolando a roda remendada do Dr. Otterly, recordava-se de que o dinheiro que ganhara nos cavalos lhe garantia uma forte probabilidade de remediar a sua sorte com uma quota numa moderna estação de serviço na Forja do Bosque mas lembrando-se que dadas as circunstâncias não pareceria bem mostrar excessivo júbilo, tentou conter-se, o que não o impediu de cinco segundos depois desatar a assobiar um doce e exultante assobio.
Trixie cantava e o cozinheiro assobiava mais alto mas com menos suavidade que Simon. Camilla escovava o cabelo curto em frente da janela aberta enquanto ia repetindo exercícios de controlo de dicção. Pensava em como amava Ralph e, tal como Simon, tentou convencer-se de que não era decente sentir-se tão feliz. A lembrança da morte atroz do avô invadiu-a subitamente e sentiu-se acometida de piedade e amor, não apenas por ele mas por toda a gente. Camilla tinha dezoito anos e era um encanto.
Dame Alice despertou de uma ligeira sonolência   e durante um momento sentiu-se desesperadamente velha. Avistou um pintarroxo no parapeito da janela. O seus olhos eram vivos e a cabeça polida pelo sol tinha movimentos rápidos. Lá em baixo os gansos berravam com toda a força. Dulcie devia estar a tomar o pequeno almoço na sala de jantar. A vaga de depressão recuou."

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sábado, julho 02, 2011

Com os Holandeses

Sinceramente, não estava à espera deste livro. Rentes de Carvalho está progressivamente a tornar-se mais conhecido em Portugal. Como escritor cujo reconhecimento aconteceu de fora para dentro, interessa saber onde foi esse "fora": o seu "fora" foi a Holanda, onde esteve (ou ainda parcialmente está) radicado bastantes anos.
Neste livro fala sobre os holandeses. E não lhes poupa críticas. Que nem são dissimuladas, nem com grandes ressalvas. Sejamos claros, este livro é o retrato feito por um homem da "Europa do Sul" de todas as chatérrimas peculiaridades que levaram ao sucesso a Holanda, os Holandeses e, se calhar, extendendo o raciocínio, a "Europa do Norte". Aquela que nos empresta o dinheiro. Portanto, a leitura deste livro ofereceu-me mais do que um amargo de boca. Pergunto-me como aguentou Rentes de Carvalho todos os seus anos holandeses. Ele semi-explica: razões sentimentais e profissionais. Fico angustiado só de pensar que a chave do nosso sucesso era/seria/será transformar-mo-nos em algo parecido a. Este livro atrapalha.
A chave do enigma pode estar em que este mesmo livro foi um sucesso de vendas... na Holanda! Esclarecidos? Ou o mistério adensa-se ainda mais? Talvez esta entrevista ajude. E o facto de o libvro não se intitular "Sobre" mas "Com".
Publicado em 1972, o livro sofre de um ou outro anacronismo. Mas são poucos e inconsequentes...




"Quem, como eu, em Amsterdam, frequenta os eléctricos, os autocarros, os comboios para a praia de Zandvoort, e de vez em quando se encontra cercado de multidão, há-de ter-se dado conta de que o holandês e, menos previsivelmente ainda, a holandesa, parecem utilizar o corpo com o mesmo fito com que os guerreiros antigos se serviam das armas de arremesso ou dos aríetes.
Quem não está habituado envergonha-se, sente-se constrangido ao ver-se em risco de asfixia por seios matronais, ao ser empurrado por traseiros de todos os tamanhos e consistências, de sentir contra a sua outras anatomias que, empurrando, apertando, se incrustam e nela se moldam com uma insistência que noutras terras seria tida por viciosa.
Só que o holandês e a holandesa não pensam nisso. Toda aquela febrilidade de empurrar, encostar, amassar, tem apenas por fim chegar primeiro, arranjar lugar, não perder a vez, não perder a ocasião.
Os latinos arribados de fresco, porém - alguns mo têm confessado e eu compreendo-os- quando se dão conta de tanta ingenuidade, encontram nos transportes públicos prazeres e oportunidades que os jejuns seculares tornam ainda mais picantes.
Também aí o holandês olha de alto. As suas preocupações são outras. Aliás o jogo sexual, mesmo o vício, pode ele hoje comprá-lo na loja, acompanhado de instruções de uso, quase garantido.
Voltando aos empurrões. Eles fazem parte das maneiras ou, para dizer com maior precisão, da ausência de maneiras, tais como estas se concebem fora da Holanda. Porque as maneiras aqui, salvo raras excepções, parecem ter uma predilecção para ser ao contrário do que seria de esperar."





"Desde que a conheço, a família holandesa tem sido para mim uma fonte inesgotável de observação e em certa medida de perplexidade. Não cabe aqui analisar o que a família realmente é, aquilo que as instituições pretendem que ela é, que ela poderia ser. Se noutras partes é semelhante ou diferente, com os mesmos problemas ou com outros, também não é ponto que agora interesse.
Por uma questão de facilidade tomarei o que me parece corresponder à família holandesa típica, composta de pai, mãe, dois ou três filhos, e a eles acrescento os avós e um certo número de tias e tios, embora estes parentes, ligados pelo sangue e separados pelo resto, sejam supérfluos no retrato.
O que logo impressiona no grupo mais restrito, o dos pais e filhos, é que a força predominante parece ser a do egoísmo, o qual não se traduz apenas pela brusquidão das maneiras, mas por uma espécie de curto-circuito das comunicações entre os familiares, e uma falta de carinho e ternura, como se esses fossem sentimentos vergonhosos, aliada a um laisser-aller que à primeira vista pode parecer respeito pela liberdade de cada um, mas igualmente pode ser interpretado como suprema indiferença dos pais entre si, dos pais para os filhos e vice-versa.
Querer diminuí-los porque são menos expansivos, seria uma estupidez maldosa. E no amor, como na dedicação, o holandês é capaz de aceitar estoicamente consequências de que nós, mais ligeiros e superficiais, fugiriamos a sete pés. Mas em geral, quanta frieza também! Quando vejo uma mulher grávida nunca posso deixar de perguntar-me se o bebé não foi programado para nascer em Dezembro, de modo a que os seus progenitores aproveitem a redução fiscal correpondente a um ano inteiro."

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Os que se afastam.

Já há muitos anos que não lia Patricia Highsmith (PH). Lê-la requeria, do que me lembro, estofo, coragem, estômago. Os Ripley's, e toda uma série de contos verdadeiramente assassinos do carácter de todo e qualquer elemento da espécie humana que por lá passeasse fascinaram-me até à saturação. Este livro discreto, de 1967, relativamente curto, e péssimamente revisto - atenção Livros do Brasil! - não é dos mais exigentes nesse sentido, pelo contrário. Há um suicídio de uma rapariga, nem se percebendo bem porquê. E há, em Veneza, o ódio de um pai ao jovem marido que falhou o evitar do mesmo suicídio, um ódio terminal a deambular pelas ruas e ruelas, pelos vaporetos e pelas gôndolas. O amor de um pai não concebe uma morte assim de uma filha. Os porquês são esboçados, bem como todos os personagens. Ray é o jovem marido, Coleman o pai inconsolável. Figuras que deambulam pela cidade-palafita como pelas emoções, hesitações e falhas de carácter que vão tendo e exibindo. E, às vezes, as coisas acontecem. Esta frase, "as coisas acontecem", é talvez a definição das ficções de PH: e o que acontece raramente é bom.
Curioso que nesta novela aqui o fim não seja completamente negativo, sendo aliás o texto de PH mais upbeat que eu já li, e deixe uma abertura, uma respiração possível fornecida pelos venezianos que foram ajudando os nossos dois inimigos a sobreviver um ao outro. Talvez PH tenha passado bons tempos em Veneza e daí a excepção. A última palavra do livro é "amizade".
Enfim, como sabê-lo, ao despedir-mo-nos de uma cidade onde, Elizabetta, a fugaz presença romântica, pergunta: "um sítio bonito?", como se nunca tivesse visto um nem soubesse em que consiste. Enfim, como pode uma cidade a afundar-se transmitir certezas a quem quer que seja? A sobrevivência de Ray e Coleman a este livro não lhes serve de garantia, não lhes fornece um futuro obrigatoriamente agradável... ou não fosse PH quem escreve - "we know better how things happen" - embora a amizade, mesmo - ou sobretudo - a de circunstância - possa evitar ou atrasar coisas maiores, coisas mesmo más...





"- O que é que o senhor lhe disse? - perguntou Zordyi?.
- Disse: "O que está feito, está feito. O que podemos nós fazer?"
- Não estava zangado com ele? Gosta dele?
- Não é mau rapaz. Bastante decente. De contrário, não teria permitido que a minha filha casasse com ele. Na minha opinião, é um fraco. Peggy precisava de um pulso firme.
- Tentou animá-lo nessa noite?
Coleman gostaria ter-lhe sido possível dizer que sim, mas calculou que o homem iria falar com os Smith-Peters.
- Disse-lhe: "Aconteceu. Foi um choque para ambos." Qualquer coisa nesse género.
- Havia alguma razão especial para ele querer falar consigo naquela noite? A Polícia disse que os outros já se tinha ido embora do restaurante. Ficaram só vocês os dois.
- Disse-me que me queria explicar qualquer coisa. Depreendi que seria o ter feito tudo o que podia pela Peggy, tentara fazer com que ela fosse a um psiquiatra e ela recusara-se, e Ray queria que eu soubesse  que a culpa não tinha sido sua.
Coleman sentiu que Zordyi não estava nada interessado na razão do suicídio de Peggy. O que ele dissera encaixava muito bem, pensou Coleman, era o género de coisas que qualquer jovem poderia ter dito antes de se suicidar.
- Durante quanto tempo conversaram?
- Cerca de quinze minutos.
Zordyi não estava a tomar nota de nada.
- Fui ver as coisas dele hoje, à Pensione Seguso. A mala. Há dois buracos de bala - e acrescentou sorrindo: - a rapariga que tinha feito a mala não tinha reparado nos buracos. Também os encontrei numa camisa que ainda tinha algumas manchas de sangue. Ele tentou lavá-la, talvez apenas um dia antes.
Coleman ouvia atentamente.
- Ele não lhe disse nada acerca de ter sido atingido num braço?
- Absolutamente nada."



"A conversa não decorreu da maneira mais fácil, apesar de lubrificada pelo óleo da amizade. Luigi tinha-lhe salvo a vida uma vez. E estava a ajudar a preservá-la agora, através dos seus amigos. Ray arranjou maneira de os fazer perceber o que sentia, para deleite do signor Ciardi e de Giustina, que eram uns sentimentais, mas não deviam ter compreendido a primeira parte, sobre Luigi lhe ter salvo a vida, pensando que queria dizer que era por lhe ter arranjado um lugar onde ficar.
O signor Ciardi mandou Giustina ir buscar vinho. Todos fumaram dos cigarros americanos de Ray, menos Giustina. O ambiente do quarto era alegre. Luigi tirou duas belas laranjas de dentro da camisa e pô-las na mesinha-de-cabeceira de Ray. Perguntou a Ray em que rua tinha ele caído e lamentou a má iluminação de algumas ruas. A festa podia ter continuado por mais tempo, mas o médico tinha dito que o signor Weelson tinha que descansar, de maneira que sairam todos do quarto. Giustina trouxe o jantar a Ray - fettucini e salada, acompanhados por um copo de fortificante vinho do signor Ciardi. Ray reuniu energias para o dia seguinte.
Tinha pedido a Giustina que lhe comprasse um Gazzettino, que lhe puseram na bandeja do pequeno-almoço. Como já estava preparado, Ray não ficou muito surpreendido - surpreendeu-o, sim, o grande impacto de ver confirmado aquilo de que estava à espera - ao ver a fotografia do passaporte de Coleman na primeira página. Edward Venner Coleman, de cinquenta e dois anos, pintor americano e residindo em Roma, era dado como desaparecido desde a noite de 23 de Novembro."






"Those who walk away" é o nome original da novela. E é o que alternadamente fazem Ray e Coleman. Mas Coleman não aproveita esse retiro que o anonimato de te darem como desaparecido pode dar, uma pausa como um motor que estando em falta pára e um bom bocado depois volta a funcionar, mas bem.
Ray vence Coleman porque soube "afastar-se".

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sábado, junho 11, 2011

Memento Mori

Muriel Spark escreveu este romance para nos avisar como pode ser a velhice. Nasceu escocesa e, avisadamente, faleceu em Itália. Escreveu contos imaculados mas também, peças de teatro, poesia, biografias e, em 1959, publicou este romance.
No princípio era uma cambada de velhos, gente que vagamente ou não tinham sido importantes na cena intelectual inglesa, agora não - velhos. Um deles recebe um telefonema: "Lembra-te que vais morrer!" Este telefonema, cuja autoria ficará por esclarecer dissemina-se ao mesmo tempo que as frágeis e empestadas relações entre os vários personagens vão-se desmoronando. Idem o resto das gentes que os rodeiam, num desgarrado jogo de interesses onde o acaso e - será mesmo? - o destino anunciado por telefone jogam o seu papel, agudizando as angulosidades ou as maldades, se preferirmos de cada um que recebe "a chamada", e depois funcionando em ricochete.
Vão acontecendo também as mortes desta gentes empeçonhadas, pois o que pode a um velho acontecer senão... a morte? Humor negro perfeitamente decantado para que a mensagem final não seja bem visível a não ser no fim: cuidado como envelheces. Lê-se num jacto até ao fim, o gosto amargo não dispensando um DVD de comédia logo depois para amenizar...



"A razão porque a família de Lisa Brooke organizara a reunião pós-funerária num salão de chá, e não na pequena casa de tijolo, entre a habitação e o estúdio, em Hampstead, onde morara Lisa Brooke, era a seguinte: Mrs Pettigrew, a governanta de Lisa, continuava ainda a habitá-la. A família descobrira, entretanto, que Lisa legar a maior parte da sua fortuna a Mrs Pettigrew, a qual era, de havia longa data, tida por um elemento de desgraça na vida de Lisa. Tinham-se aferrado a essa ideia como acontece a quem obscuramente julga ter intuído qualquer coisa de sensato, embora as pistas que o conduz às suas conclusões sejam falsas. Mas fosse qual fosse o conteúdo das suspeitas que mantinham acerca da influência de Mrs Pettigrew sobre Lisa, tencionavam, se pudessem, contestar o testamento da sua parente, sustentando que, na altura em que o fizera, Lisa não se encontrava no seu perfeito juízo, o que teria sido de molde a permitir a Mrs Pettigrew influenciá-la indevidamente."



"Charmian acordou às quatro horas e pressentiu que a casa estava vazia. Mrs Anthony passara a deixar o serviço às duas da tarde. Mas Godfrey e Mrs Pettigrew deviam ter também saído. Charmian deixou-se ficar à escuta um pouco mais, tentando confirmar a impressão de estar só naquela casa. Não ouvia um som. Levantou-se lentamente, arranjou-se sózinha e, apoiando-se agarrada à balaustrada do patamar e depois ao corrimão, desceu as escadas. Estava no primeiro patamar intermédio quando o telefone tocou. Não se apressou, mas alcançou-o enquanto ainda tocava.
- É Mrs Colston quem fala?
- Sim sou eu própria.
- Charmian Piper, não é verdade?
- Sim. Você é jornalista?
- Lembre-se - disse a voz - que vai morrer.
- Oh, quanto a isso - disse ela - , há mais de trinta anos que de vez em quando tenho pensado no asunto. A minha memória trai-me a respeito de algumas coisas. Tenho oitenta e seis anos feitos. Mas, seja como for, não me esqueço da minha morte, venha quando ela vier.
- Fico encantado ao ouvi-la falar assim - disse o homem. - Até outro dia.
- Até outro dia - disse ela. -  De que jornal é você?"



"- A Avó Green morreu - disse Miss Taylor.
- Ah... eu vi, de facto, outra pessoa na cama dela. Mas de que morreu ela?
- Uma arteriosclerose. Acabou por lhe atacar o coração.
- Sim, há quem diga que temos a idade que têm as nossas artérias. Teve uma boa morte?
- Não sei.
- Estavas a dormir nessa altura? - perguntou Alec.
- Não, estava acordada. Havia uma certa agitação aqui.
- Mas não teve um fim tranquilo?
- Não. Para nós não foi tranquilo.
- Gosto sempre de saber - disse ele - se uma pessoa teve uma boa ou má morte. Tenta saber.
Ela, por um momento, odiou-o do fundo do coração.
- Uma boa morte - respondeu-lhe - não depende da dignidade da atitude exterior, mas das disposições da alma.
Também ele, subitamente, a odiou.
- Demonstra-mo - disse Alec.
- Refuta-o - disse ela, cansada.
- Receio - disse ele - ter-me esquecido de te perguntar como tens passado. Tens passado bem, Jean?
- Estou um bocadinho mais forte, mas a catarata incomoda-me muito.
- A Charmian sempre acabou por ir para aquela casa de saúde do Surrey. Não gostavas de lá ir ter com ela?
- Então, o Godfrey focou sózinho com Mrs Pettigrew.
- Gostavas, com certeza, de estar com a Charmian.
- Não - disse ela."




Brilhante. Ed. Rel. d'Água.
Texto sobre do Guardian.

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Anatomía de un Instante

Javier Cercas é um escritor e jornalista - colunista, melhor dito - espanhol, nascido na provincia de Cáceres em 1962.
Li o seu livro e best-seller "Anatomía de un Instante" (AI), considerado o melhor livro editado em 2009 em castelhano pelo suplemento literário Babelia, do El Pais.
AI trata do falhado golpe anti-democrático protagonizado por Tejero, conhecido em Espanha pelo "23-F" e que, simbolicamente e paradoxalmente, quase marca o fim da transição: algum tempo depois o PSOE ganhava eleições com Felipe González e Espanha tinha o 1º governo de esquerda desde 1939.
O instante é esse, a entrada de Tejero nas Cortes espanholas de pistola em punho gritando "Al suelo, al suelo!" Todos os presentes obedeceram imediatamente, até porque para além de empunhada, a dita pistola foi disparada, embora para o ar... Só três pessoas não obedeceram à ordem dada, apesar de directamente ameaçados: falamos de Adolfo Suárez, então presidente do governo, o General Mellado então ministro da Defesa, e Santiago Carrillo, secretário geral do PCE.
Capítulo após capitulo a coragem de cada um destes homens, as possíveis razões para a mesma, toda a trama envolvendo o golpe e a celebrada resistência do então jovem rei Juan Carlos ao consumar do golpe recebem tratamento de escalpelo. Acreditamos e percebemos, porque é convincente a escrita de Javier Cercas, que nada foi só branco ou só preto neste dia, tendo havido pelo contrário multiplas e cambiantes tonalidades de cinzento, e também de outras cores, alterando o arco-íris das opções com o passar das horas...
Este livro não é a apologia de nenhum destes três homens. Antes pelo contrário mas porém. Percebe-se que Javier Cercas não gosta do animal político. As suas avaliações quer de Suárez quer de Carrillo não são panegíricas, antes pelo contrário. Mas podemos adivinhar que perante os homens políticos de hoje, hoje Cercas será ainda mais cortante e mais assertivo a descobrir-lhes as falhas, os porquês menos heróicos das, afinal, ocasionalmente acertads escolhas. A história nunca é tão grande quanto a pintam. Mas do que neste livro se trata andou relativamente perto.



"Vuelvo a una imagen de la grabación: de pie, con los brazos caídos a los costados y desafiando a los seis guardias civiles que acribillan el hemiciclo del Congreso, el general Gutiérrez Mellado - tanto como querer impedir la entrada de los rebeldes en el recinto, tanto como querer someter el poder militar al poder civil - parece querer proteger con su cuerpo el cuerpo de Adolfo Suárez, sentado a su espalda en la soledad de su escaño de presidente. Esa imagen es otro resumen o emblema: el emblema o resumen de la relación entre esos dos hombres.
La fidelidad de Gutiérrez Mellado a Adolfo Suárez fue una fidelidad sin condiciones desde el principio hasta el fin de su carrera política. Cabe en parte atribuir este hecho al sentido de la gratitud y la disciplina de Gutiérrez Mellado, a quien Suárez habia convertido en el primer militar del ejército tras el Rey y en el segundo hombre más poderoso del gobierno; es seguro que se debió a la confianza total que depositó en la sagacidad política de Suárez y en su coraje, su juventud y su instinto. Suárez y Gutiérrez Mellado eran no obstante, al margen de la tarea política que los unió, dos hombres opuestos en casi todo: ambos, en verdad, compartían una granítica fe católica, ambos cultivaban un cierto dandismo, ambos eran delgados, frugales y hiperactivos, ambos amaban el fútbol y el cine, ambos eran buenos jugadores de cartas; pero prácticamente ahí terminaban sus afinidades: el primero era un experto en las añagazas del mus y el segundo en la limpia aristocracia del bridge, el primero era un provinciano de familia republicana y el segundo era un madrileño de pura cepa y de buena familia monárquica, el primero fue un estudiante desastrado y el segundo un estudiante de matrículas, el primero fue siempre un profesional del poder y el segundo fue siempre un profesional de la milicia, el primero poseía, en fin, una inteligencia política, un encanto personal, un don de gentes y un descaro de jefe de pandilla de barrio con los que practicó con destreza indiscriminada el arte de la seducción, mientras que la inteligencia técnica y la sobriedad de carácter del segundo tendieron a confinar su vida social en el círculo de su familia y de unos pocos amigos. A ambos los separaba, además, una diferencia más obvia y más importante: Suárez tenía exactamente veinte años menos que Gutierrez Mellado; por edad hubieran podido ser padre y hijo, y es casi imposible resistirse a interpretar la relación que los unió como una extraña y descompensada relación paterno-filial en la que el padre ejercía de padre porque protejía al hijo pero también ejercia de hijo porque no discutía sus órdenes ni ponía en duda la validez de sus juicios."

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Amar de Novo

Este romance de Doris Lessing intitula-se originalmente "Love Again" e, parece-me a mim que o indefinido da expressão reflecte melhor o que acontece e transpira deste assaz longo texto, datado de 1995.
E o que acontece e transpira? Uma escritora viúva de 65 anos, Sarah Durham, ligada ao mundo do teatro decide escrever a vida trágica de uma crioula caribenha, escritora, compositora, uma daquelas figuras que só o século XIX, assume-se pôde produzir. O romance acompanha as peripécias da produção da peça em vários cenários e condições, e em simultâneo o jogo de relacionamentos que vai acontecendo entre os vários figurantes, actores, produtores, encenadores, mecenas, etc. Neste percorrer dos processos de pensamento, produção, representação, venda e dissolução de uma peça, o retrato criado é muito bom. A nossa viúva enceta uma relação de amizade muito próxima com Stephen, um homem que se apaixonou... pela falecida heroína da peça (!), e apaixona-se ela por sua vez por dois homens em rápida sucessão, 37 e 30 anos mais novos do que ela. Durante todas estas centenas de páginas só um beijo acontece, e, no entanto, linhas sobre linhas relatam cirurgicamente o estado apaixonado que é vivido por Sarah, as alterações cutâneas, musculares, aponevróticas, organolépticas, etc. Nestas linhas Doris Lessing é perfeita, é sublime. Até porque efectivamente assim é a paixão. As duas figuras masculinas onde a nossa protagonista "entra", e "sai", e "entra", e volta a "sair", são ao fim e ao cabo apenas pretextos para que um "estado de amor" quase perene esteja, seja, longamente. Porque em intervalo os corpos assim ficam, entre as noites suspira-se pela que (não) houve, anseia-se em cansaço pela que aí (não) vem. Noites onde portanto nunca nada lhe acontece. Ela não "ama", está "em amor", uma variante dos estados febris que, se calhar, um dia destes, indicarão tratamento médico, ou pelo menos, vigilância apertada. No fim sobrevive, "sai", e descansa, ela também vigiando. No de sobreviver o livro não é unânime, há feridos, e há um morto. É de ler, há páginas que de tão soberbas - e correctas - atrapalham...



"Gosto de estar consigo", declarara o homem, e esta frase não só se limitara a demonstrar a franqueza (a generosidade) que seria de esperar numa pessoa como ele como acrescentara um elemento novo às coisas: a surpresa. Será que ele considerava que a satisfação tinha motivos de surpresa? Bom, pela parte que lhe tocava, a verdade é que também Sarah não estava habituada àquele tipo de prazer. Fora obrigada a trabalhar tanto, a vida fizera-a enfrentar tantas responsabilidades... Caramba, mas por certo um homem com tantos privilégios quanto ele... Ora, sabia bem que aquilo era algo que só funcionava quando estavam juntos, que as portas daquela espécie de jardim das delícias permaneciam cerradas até ao momento em que ambos se encontravam.
No meio de tudo isto, ei-los a abanar a cabeça e a mimosearem-se com sorrisos irónicos, tão convencidos estavam de que uma afinidade assim só podia ser classificada como improvável. Um verdadeiro encanto. Era como receber um presente maravilhosamente embrulhado, abri-lo e descobrir que lá dentro se encontra o que temos desejado há anos mas que nunca sonhámos receber. A vida de Sarah transformara-se em algo maravilhoso graças a este Stephen-Não-Sei-Quê, que por acaso se apaixonara por uma mulher que já não pertencia ao mundo dos vivos.
(...)
"Você é louco, Stephen." "Claro que sou. Não tenho quaisquer problemas em o admitir, Sarah." Contudo, dizer que alguém é louco é transformá-lo num ser inofensivo. Sem dúvida, aquela era mesmo uma palavra traiçoeira."



"Sarah voltou a olhar-se ao espelho, elogiando o que lhe agradava, censurando o que não podia elogiar, e, ao lembrar-se de Henry, deixou-se levar por uma onda de ternura. Porém, a ternura pouco mais é do que uma corda esticada sobre o abismo. Podia muito bem sonhar com os braços de Henry passados em volta do seu corpo, mas bastava colocar a situação em palavras para a cena se tornar caricata, merecedora de pouco mais de uma gargalhada irónica. Uma mulher com mais de 60 anos apaixonada por um rapaz com metade da sua idade... Como teria ela descrito aquilo aos 20 anos? Ou mesmo aos 30? (E era como se estivesse a ver o seu rosto de rapariga, severo, cruel, arrogante.) De nada servia utilizar a desculpa de que também ele a amava. Claro que Henry queria ir para a cama consigo e, se o fizesse, tal por certo se ficaria a dever à paixão, mas também - e como lhe magoava algo tão cruel quanto aquilo! - a uma certa dose de curiosidade. "Como será fazer amor com uma mulher com o dobro da minha idade?" E teria ela coragem de se virar para aquele amante e confessar que já não dormia com um homem há cerca de vinte anos? "Ao fim e ao cabo, vinte anos pouco ou nada representam para mim... por certo já ouviste dizer que, com o passar dos anos, o tempo adquire uma outra dimensão... talvez até já o tenhas começado a sentir, enquanto que, para alguém com a tua idade, vinte anos equivalem a quase dois terços de vida." Não, ali estava algo que nem mesmo ela, cuja franqueza em questões amorosas já lhe trouxera alguns problemas, seria capaz de confessar a homem algum. Contudo, se fossem mesmo para a cama, seria exactamente isto que estaria a pensar: "Há vinte anos que não dormia com um homem.""



"Estava-se agora em meados de Agosto, e há já algumas semanas que deixara de sentir a angústia que tanto a atormentara. Tal como previra, mal recordava o quanto aquela fora intensa, provando assim que a Natureza (ou fosse lá o que fosse) não necessita de transformar os seus filhos em escravos de recordações dolorosas. Via-se de novo confrontada com momentos deveras agradáveis, tirando prazer de uma série de pequenas sensações físicas, por exemplo o contacto da sola nua do pé com a madeira do chão, o calor do Sol a aquecer-lhe a pele, o cheiro a café ou a terra, o odor ténue do orvalhovnas pedras. Voltara a ser aquela mulher que nunca chorava, se bem que a ideia de uma boa crise de lágrimas tivesse o seu quê de tentador. Contudo, tudo levava a crer que se esquecera de como era chorar.
(...)
Podia voltar a piorar, podia voltar à beira do abismo - era com frequência que, no rosto das pessoas de idade, nos seus olhos, via sinais de uma tristeza estéril que só agora compreendia. Oh, não, não queria nada daquilo! Recusava-se a aceitá-lo. E a única forma de o manter afastado, a esse abutre que se alimenta exclusivamente dos corações humanos, era mantendo a vigilância."




P.S.: Doris Lessing agradece/invoca de entrada a Stendhal, Proust, Goethe e D.H.Lawrence a cartografia para este romance. Prova de como para ela este era "alguma coisa e mais ainda!" . Pena as Publicações Europa-América ou não terem cuidado a tradução ou a revisão do texto. As if a minor task it was...

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domingo, junho 05, 2011

Filhos Sem Filhos.

Enrique Vila-Matas publicou esta colectânea de textos em 1993. O título é em si um programa. Vila-Matas é um discípulo confesso de Kafka. A dedicatória/texto que enceta as hostilidades reza assim:

"A Alemanha declarou Guerra à Rússia. À tarde fui nadar."

Esta pérola pertence à entrada de 2 de Agosto de 1914 de Kafka.
Ser filho e não ter filhos, eis um programa à Vila-Matas: alguém que filho seja e se negue a cumprir o plano que permitiu a sua própria existência, a... reprodução da espécie. Vila-Matas é isto: alguém que não pediu para nascer e que com alguma frequência não gosta do que vê. E enquanto isto escreve.

Os quinze textos situam-se em momentos e terras diferentes de Espanha e o conjunto pretende demonstrar a um tempo um personagem e a sua angústia e a Espanha do ano em questão. Com maior ou menor suavidade são portanto enunciados quinze pesadelos.

O projecto de Vila-Matas é-nos conhecido e, aliás, vemo-lo como meritório. E a maior parte dos textos são muito bons.


"Reconheci perfeitamente o índio silencioso. Tina-o visto a trabalhar naquela casa da Calle Palacio, no centro de Cuzco. Agora carregava nos arredores de Cáceres com grande dignidade os pertences do meu pai e os meus. As calças, muito curtas, só o tapavam até aos joelhos.  Ia descalço, completamente empapado de chuva. Era espigado, mas não alto.  Sob a aba do seu chapéu pude observar o seu nariz aquilino, os seus olhos fundos, os tendões salientes do pescoço. Não havia dúvida nenhuma. Era ele.
- Mas o que faz o índio aqui? - perguntei aterrado ao meu pai.
Então acordei.
- De que índio fala? - perguntou a minha mãe.
Eu tinha a testa apoiada, praticamente mergulhada, nos meus apontamentos. Transformara-me durnate uns minutos no estudante caído por excelência. Dispus-me a retomar o estudo. Os meus pais retiraram-se para dormir. Estudei toda a noite. Agora já não chove, a trovoada afastou-se, amanhece. Eu continuo diante dos meus apontamentos. Não deixarei esta mesa até terminar completamente os meus estudos. Não os terminarei nunca."


"Lembro-me que de todas as crianças da pandilha do bairro eu era a única que tinha televisor e que, nesse dia, saí disparado do salão familiar e, descendo as escadas quatro a quatro, cheguei à rua e fui ao bar onde jogávamos matraquilhos e gritei a todos que tinham morto John Kennedy, gritei várias vezes muito exaltado, mataram Kenndey, mataram Kennedy, e lembro-me que o chefe da pandilha, impassível como sempre, me disse: "E depois?"


O texto mais forte para mim, talvez porque seja uma boa aproximação de Vila-Matas ao lirismo, é o "Olhando o Mar e Outros Temas"


"Há canções muito breves que completam as primeiras faces dos longplays. Eram as que mais agradavam à nossa mãe. Sei-o porque, naquela tarde de piquenique e zarzuela, a ouvi dizer:
- Gosto das canções breves e ligeiras como a própria vida. Só essas canções dizem a verdade."


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quarta-feira, maio 25, 2011

Tremendas Trivialidades

Gilbert Keith Chesterton, mais conhecido como G.K. Chesterton, é um escritor inglês do início do século XX, famoso primeiro pelas suas engenhosas histórias do Padre Brown, investigador e curioso personagem, e, por outro lado, como polígrafo e escritor de génio a escrever sobre... tudo e... nada. Foi chamado "the prince of paradox".
Este livrinho recolhe umas quantas crónicas e pequenas histórias de prosa cristalina e raciocínios estratosféricos. Graças ao projecto Gutemberg podemos lê-lo no inglês original online e até fazer o download.
Os seus textos chamam-se "Um pedaço de giz", "Os doze homens", "A torre" ou "Como conheci o presidente". Podiam e podem servir de modelo à prosa inspirada que adorariamos ler num fim-de-semana sob o formato de uma crónica alargada suficiente para nos ocupar quinze-vinte minutos e, pela extraordinária qualidade do dito e do como-dito, servir para regular a temperatura, aquecendo se frio, arrefecendo se, por ex., hoje. Infelizmente, hoje cá por Portugal poucos esboçam sequer algo parecido. Esclareço que Chesterton não é um humorista. Acaba por sê-lo, e tudo o mais. A catalogar como "Prosa Exemplar"!


"Antes de qualquer homem falar autoritariamente acerca do amor aos homens, insisto (insisto com violência) em que esse homem se deva sempre sentir encantado, quando o seu barbeiro tentar falar com ele. O seu barbeiro é a humanidade: ame-o por conseguinte. Se isto não lhe agradar, então não me mostrarei disposto a aceitar nenhum substituto com interesses pelo Congo ou pelo futuro do Japão. Se um homem não consegue amar o seu barbeiro, que já encontrou pessoalmente, como poderá amar japoneses que nunca viu?"


"Somente uma vez roubei um bolso, e foi - talvez por distracção minha - o meu próprio. O meu acto pode qualificar-se assim com alguma razão. Aconteceu que, ao tirar coisas do meu próprio bolso, senti pelo menos uma das emoções mais tensas e palpitantes que os ladrões podem sentir: tinha uma completa ignorância e uma profunda curiosidade em descobrir  o que lá encontraria. Talvez seja um elogio exagerado classificar-me de pulcro e cuidadoso. Não obstante, posso sempre, do modo mais satisfatório, dar conta exacta de tudo quanto me pertence. Posso sempre dizer onde estão e o que fiz com os meus pertences, desde que não os tenha enfiado nos bolsos. Se alguma vez alguma coisa deslizar para dentro desses abismos desconhecidos, aceno-lhe uma triste despedida virgiliana. Suponho que as coisas que deixei cair para dentro dos bolsos continuem lá; a mesma presunção aplica-se às coisas que deixei cair para dentro do mar. Todavia, considero com a mesma reverente ignorância as riquezas armazenadas em ambos os abismos sem fundo. Dizem que, no último dia, o mar devolverá os seus mortos; e eu suponho que, na mesma ocasião, longas fileiras de coisas extraordinárias sairão tumultuosamente dos meus bolsos. Já me esqueci, contudo, de que coisas são essas; e não haverá realmente nada (excepto dinheiro) que me surpreenderá por lá encontrar."


"Num certo dia, enquanto me preparava para deixar Londres e ir de férias, um amigo meu prestou-me uma visita no apartamento de Battersea, encontrando-me com meia bagagem feita.
- Pelos visto estás a preparar mais uma das tuas viagens - disse-me. - Aonde vais?
Com uma correia entre os dentes, repliquei:
- A Battersea.
- O engenho da tua resposta escapa-me por completo - disse-me.
- Vou a Battersea - repeti -, para Battersea via Paris, Belfort, Heidelberg e Frankfurt. A minha resposta não continha engenho nenhum. Continha simplesmente a verdade. Vou deambular pelo mundo inteiro até encontrar de novo Battersea. Algures nos mares do sol poente ou do sol nascente, algures no último arquipélago da terra, há uma pequena ilha que desejo encontrar: uma ilha com pequenas colinas verdes e grandes penhascos brancos.Os viajantes dizem-me que se chama Inglaterra (os viajantes escoceses dizem-me que se chama Grã-Bretanha), e rumoreja-se que algures no seu coração fica um lugar belíssimo a que chamam Battersea.
- Suponho que seja desnecessário dizer-te - disse o meu amigo com ar de compaixão intelectual - que estamos em Battersea.
- É absolutamente desnecessário - respondi-lhe -, e é espiritualmente uma falsidade. Não consigo aqui ver Battersea alguma; não consigo aqui ver Londres alguma nem nenhuma Inglaterra. Não consigo ver aquela porta. Não consigo ver aquela cadeira: porque uma nuvem de sono e hábito postou-se diante dos meus olhos. O único meio de volver a elas é ir a outro sítio; e essa é a verdadeira finalidade das viagens e o prazer autêntico das férias. Supões que vou a França para ver França?"

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quinta-feira, maio 05, 2011

Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos.

O mundo subitamente encontrou-se órfão de Tony Judt. Começámos a ouvir falar deste professor de história, globe-trotter do ensino da história do século XX recentemente. Ele trazia a aura de ser o autor do melhor livro sobre a história da segunda metade do século XX, esse capítulo da nossa vida inda agora mesmo encerrado. E desde sempre era conhecido como um dos defensores de Keynes e do seu legado, em rápida erosão nesta crise global da economia capitalista pós-2008, onde a resposta aos erros do capitalismo dos mercados parece ser apenas mais capitalismo e mais erosão do legado Keynesiano, construido no pós-guerra.
O livro de que falo tem sido inúmeras vezes citado nos últimos anos ou meses, tão rápida vai esta vida e esta corrida para o abismo - o FMI chegou "ontem" a Portugal, por ex.... E Judt morreu o ano passado.

Take one:

"Todos os empreendimentos colectivos exigem confiança. Dos jogos infantis às instituições sociais complexas, os homens não podem trabalhar juntos a menos que suspendam a sua desconfiança mútua. Uma pessoa segura a corda, a outra salta. Uma pessoa encosta a escada, a outra sobe. Porquê? Em parte porque esperamos reciprocidade, mas em parte devido a uma clara propensão natural de trabalhar em cooperação para o bem colectivo.
A tributação é um exemplo revelador desta verdade. Quando pagamos impostos há uma série de suposições que fazemos sobre os nossos concidadãos. Em primeiro lugar, partimos do princípio de que eles também vão pagar os seus, ou então sentir-nos-íamos injustamente sobrecarregados e a dada altura recusaríamos contribuir. Em segundo lugar, confiamos que aqueles a quem conferimos temporariamente autoridade sobre nós irão colectar e empregar responsavelmente esse dinheiro. No fim de contas, quando descobrirmos que eles o delapidaram ou esbanjaram, já teremos tido um grande prejuízo.
Em terceiro lugar, a maior parte da colecta fiscal vai para o pagamento de dívidas contraídas ou para o investimento em despesas futuras. Assim, existe uma relação implícita de confiança e mutualidade entre os contribuintes de ontem e os beneficiários de hoje, e entre os contribuintes de hoje e os receptores passados e futuros - e, claro, os contribuintes futuros que irão cobrir o encargo das nossas despesas actuais. Estamos portanto condenados não só a confiar em pessoas que nunca poderíamos ter conhecido e pessoas que nunca iremos conhecer, com todas as quais temos uma relação complicada de interesse recíproco."

Take two:

"(...) foram a social-democracia e o Estado-Providência que uniram as classes médias profissionais e comerciais às instituições liberais no seguimento da II Guerra Mundial. Era uma questão com alguma importância: o medo e o descontentamento da classe média é que tinham propulsionado o fascismo. Vincular novamente as classes médias às democracias era de longe a tarefa mais importante que enfrentavam os políticos do pós-guerra - e de forma alguma uma tarefa fácil.
Na maioria dos casos isso foi conseguido pela magia do "universalismo". (...) era oferecido às "classes médias" instruidas a mesma assistência social e serviços públicos que à população trabalhadora e aos pobres: ensino gratuito, tratamento médico acessível ou gratuito, pensões públicas e subsídio de desemprego. Como consequência, agora que tantas necessidades vitais eram cobertas pelos seus impostos, a classe média europeia descobriu nos anos 60 que o seu rendimento líquido era muito maior que em qualquer época desde 1914.
É interessante que essas décadas se tenham caracterizado por um misto singularmente bem-sucedido de inovação social e conservadorismo cultural.(...) Foram as iniciativas de Keynes que levaram à criação do Royal Ballet, do Arts Council e muito mais. Eram provimentos públicos de arte inquestionavelmente "elevada" - muito à semelhança da BBC de Lorde Reith, a qual se impusera a obrigação de elevar o gosto popular, em vez de condescender com ele.
Para Reith ou Keynes (...) esta abordagem nada tinha de paternalista (...). Isso era a "meritocracia": a criação de instituições elitistas pazra candidatos em massa a expensas públicas - ou pelo menos garantida pela assistência pública. Ela começou o processo de substituir a selecção pela herança ou riqueza por uma mobilidade vertical através da educação. E poucos anos depois veio a produzir uma geração para a qual essas coisas pareciam óbvias, e que por isso não lhes dava valor."

Take three:

"A política dos anos 60 evoluiu assim para um conjunto de reivindicações individuais perante a sociedade e o Estado. A 'identidade' começou a apoderar-se do discurso público: identidade privada, identidade sexual, identidade cultural. Daqui foi um pequeno passo para a fragmentação da política radical, a sua metamorfose no multiculturalismo. Curiosamente, a nova esquerda manteve-se extremamente sensível aos atributos colectivos das pessoas das terras distantes, onde pudessem ser reunidas em categorias sociais anónimas como 'camponês',´'pós-colonial', 'subalterno' e afins. Mas internamente reinava, incontestado, o indivíduo.
Por muito legítimas que sejam as reivindicações dos indivíduos e a importância dos seus direitops, sublinhá-los acarreta um preço inevitável: o declínio de um propósito de vida partilhado."


Como resolver isto? E como resolver todo este resto em que nos encontramos imersos? Este livro não é demasiado explícito no "como resolver", nem se calhar lhe devíamos pedir tal coisa. É sim um acender de alarmes sobre a aparente inevitabilidade como estamos a aceitar o destruir de um edifício de estabilidade que tão cuidadosamente se construiu no pos-guerra. Não seria lógico um maior esforço para conservar algo que mais do que um erro os gurus da "nova economia" se apressaram a declarar apenas mais uma... utopia? Claro que, 48h após o desfecho das decisões da troyka, tudo isto é... tarde demais...

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